O sofrimento psíquico do profissional de enfermagem

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Glaudston Silva de Paula
Julia Fontes Reis
Zenith Rosa Silvino
Virginia Faria Damásio Dutra
André Luiz de Souza Braga
Elaine Antunes Cortez

Resumo

INTRODUÇÃO

Os profissionais mais suscetíveis aos problemas da saúde mental são aqueles que interagem, a maior parte do tempo, com indivíduos que necessitam de sua ajuda, como as enfermeiras, os professores, as assistentes sociais, entre outras profissões 1.

Alguns fatores interferem nas condições de trabalho, na área da saúde como o desenvolvimento rápido e contínuo da tecnologia na área da saúde; a grande variedade de procedimentos realizados; o aumento constante do conhecimento teórico e prático exigido nessa área; a especialidade do trabalho; a hierarquização, dificuldade de circulação de informação; o clima de trabalho negativo; papéis ambíguos e falta de clareza das tarefas executadas; o ritmo de trabalho, ambiente físico, estresse do contato com o paciente e familiar; a dor e a morte como elementos que potencializam a carga de trabalho ocasionando riscos à saúde física e mental dos trabalhadores do hospital 2,3.

Atualmente temos dados de pesquisa suficientes para afirmar que o cotidiano hospitalar é gerador de sofrimento psíquico para os trabalhadores da área da saúde. Pitta identifica o trabalho no hospital como penoso e insalubre para toda a equipe envolvida 4.

OBJETIVO

Identificar o perfil dos trabalhadores de enfermagem e caracterizar as condições de trabalho que levam o profissional de enfermagem da unidade hospitalar ao sofrimento psíquico

MÉTODO

Pesquisa descritiva e exploratória, com abordagem qualitativa realizada no Hospital e Maternidade – Luiz Palmier (HMLP) em São Gonçalo/RJ com profissionais de enfermagem.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da EEAN/HESFA - UFRJ, conforme Resolução nº. 196/96 (CNS), sob protocolo nº 070/2009.

Foram entrevistados 40 sujeitos o que representou uma amostra de 42% dos profissionais, do total da população, técnicos e enfermeiros, do hospital em estudo, no horário diurno. O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionário com 23 questões.

Na categorização dos dados empíricos, utilizamos os passos de Minayo5: ordenamento dos dados, classificação dos dados e análise final. Ressalta-se que, o referencial que orientou para a análise dos dados foi Dejours.

RESULTADO

A equipe de Enfermagem do HMLP é representada por 77,5% de profissionais do sexo feminino , na amostra pesquisada, o que representa uma proporção de 3 mulheres para cada homem.

Da amostra, 54% são da Clínica Médica, 10% do Centro Cirúrgico, 8% da Coronária, 8% do Centro de Tratamento Intensivo e 20% são de outros setores.

Quanto ao grau de instrução, a equipe divide-se em dois grupos, no qual a prevalência é o nível técnico com 82% e o grupo de nível superior que totalizam 18%.

Ressaltamos 90% dos sujeitos apresentaram relutância em contribuir com a pesquisa, sugerindo o vínculo, com a instituição em questão, que é de caráter contratual.

         Indagados quanto ao anseio que levavam à escolha profissional, 59% dos entrevistados tiveram como fator motivacional a aptidão seguidos de 18% que referiram-se a “outros motivos”, tais como a demanda profissional no mercado de trabalho, dentre outros, enquanto 13% chegaram ao denominador comum que a curiosidade foi fator preponderante na escolha e 10% pelas situações de doenças em familiares.

            No que concerne à relação interpessoal, o interagir com a chefia foi questionado e os resultados mostram que 55% dos entrevistados mantêm uma boa relação.

            Não obstante as dificuldades relatadas pelos profissionais, no que tange a satisfação pessoal em relação ao trabalho, observamos que os mesmos encontram-se satisfeitos, totalizando 80%. No cenário de realização profissional notamos que os realizados somam 65%.

Discussão

Dejours6 define o sofrimento como o espaço de luta que cobre o campo situado entre o bem-estar e a doença mental. O sofrimento mental pode ser concebido como a experiência subjetiva intermediária entre doença mental descompensada e o conforto (ou bem estar) psíquico7

No que concerne ao posicionamento dos sujeitos do estudo, para tentar “contorcer” ou camuflar o sofrimento, os trabalhadores usam ideologias defensivas, como deixar de tomar iniciativas e assumir responsabilidades, se fechar, não se comunicam com os outros e passam a se preocupar somente consigo, desconfiando dos colegas de trabalho que poderiam tentar prejudicá-los de alguma maneira. Assim, o relacionamento é rompido para evitar conflitos 8.

Observa-se que a visão do Enfermeiro Chefe, pelos seus subordinados, é de que o mesmo se distancia do papel de gerente que o enfermeiro tem e se limita a administrar a unidade que é responsável. Neste ínterim, vale lembrar que a Enfermagem galga o rol do caráter participativo e não supostamente o designativo. Entretanto, para os entrevistados a Chefia tem sido um fator desmotivador, dificultador e que afasta dos princípios humanísticos proposto pelo cuidado, pois a chefia não tem a visão de gestão e sim de administração, ou seja, preocupa-se apenas com o foco operacional e não com o processo e o produto final, que no caso da enfermagem, é o processo de trabalho de enfermagem e o cuidado de enfermagem respectivamente.

         A distância entre o nível técnico e superior na Enfermagem, torna-se evidente, a hierarquia com seus paradigmas trazem à luz conflitos entre as subdivisões profissionais, na execução das responsabilidades cotidianas, além de conflitos nas relações interpessoais.

Quando abordados quanto a motivação profissional, a prevalência rumou para a essência da profissão: o cuidar. Ou seja, a maior motivação é o próprio cuidar do outro. Cuidar que abrange a prestação atenciosa e continuada de forma holística a uma pessoa enferma, realçando desta maneira o direito à dignidade da pessoa cuidada.9

A prevalência da essência da Enfermagem, alerta para a satisfação do profissional. O mesmo culmina na plenitude da realização profissional, em fazer o que gosta, não obstante os dissabores e conflitos no meio.

CONCLUSÃO

Dentro da pesquisa que nos propusemos a fazer atingimos o nosso objetivo, onde nossos dados confirmam que o maior sofrimento psíquico está diretamente ligado a organização do trabalho e não com a profissão. É notório que o orgulho de ser enfermeiro se conflita com uma condição de trabalho insatisfatória gerada também pela dificuldade de relacionamento interpessoal.

Os resultados nos levam a essência da profissão, que se fundamenta no cuidar com amor ao próximo, com doação e humildade, pois a grande maioria dos entrevistados se consideram plenos, realizados e felizes em sua profissão. Assim, retomamos aos primórdios da profissão, cujas bases foram erigidas por Florence Nightingale galgadas pelo rol do altruísmo.

REFERÊNCIAS

1.     Baba V, Galaperin BL, Lituchy TR. Occupational mental health: a study of work-related depression among nurses in the Caribbean. International Journal of Nursing Studies. 1999; 36(1): 163-9.

2.     Santos MS, Trevizan MA. Sofrimento psíquico no trabalho do enfermeiro. Nursing Rev Téc Enf. 2002; 52(1): 23-28.

3.     Moos RH, Cronkite RC, Finney, JW. Health and Daily Living Form Manual. 2ª ed. California: Mind Garden; 1990.

4.     Pitta AM. Hospital: dor e morte como ofício. São Paulo: Hucitec; 1990.

5.      Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em Saúde. São Paulo: Hucitec; 2004.

6.     Dejours, C. Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações In: Chanlat, JF. O indivíduo na Organização. 3ª ed. São Paulo: Atlas; 1996.

7.     Dejours, C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5ª ed. São Paulo: Cortez; 1992.

8.     Milanesi K, Collet N, Viera CS, Oliveira BRG. Sofrimento Psíquico em Dejours. Seminário Nacional: Estado e Políticas Sociais no Brasil. Cascavel: Edunioeste. 2008.

9.     Pacheco S. Cuidar da pessoa em fase terminal: perspectiva ética. Loures (Portugal): Editora Lusociência; 2002.

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Como Citar
1.
Paula GS de, Reis JF, Silvino ZR, Dutra VFD, Braga AL de S, Cortez EA. O sofrimento psíquico do profissional de enfermagem. R. pesq. cuid. fundam. online [Internet]. 5º de abril de 2012 [citado 22º de maio de 2022];:33-6. Disponível em: http://seer.unirio.br/cuidadofundamental/article/view/1664
Seção
I PENSANDO EM SAÚDE & TRABALHO
Biografia do Autor

Glaudston Silva de Paula, Universidade federal Fluminense

Enfermeiro. Aluno especial no Mestrado Acadêmico em Ciências do Cuidado da Saúde na Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense. Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. 

Julia Fontes Reis

Enfermeira. Coordenadora de Enfermagem da Clinica de Tratamento e Reabilitação de Dependente Químico Comunidade S8. Rio de Janeiro, Brasil.

Zenith Rosa Silvino, Universidade Federal Fluminense

Doutora em Enfermagem. Mestre em Direito. Professora Titular da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Cidadania e Gerência na Enfermagem (NECIGEN) da Universidade Federal Fluminense. Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

Virginia Faria Damásio Dutra, Universidade Federal do Rio de Janeiro

: Doutoranda da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, ENSP/FIOCRUZ. Professora da Escola de Enfermagem Anna Nery/EEAN da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Rio de Janeiro, Brasil.

André Luiz de Souza Braga, Universidade Federal Fluminense

Mestre em Ensino de Ciências da Saúde e do Ambiente. Professor Assistente da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. 

Elaine Antunes Cortez, Universidade Federal Fluminense

Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora Adjunta da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

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