O ESTRESSE E A SÍNDROME DE BURNOUT EM ENFERMEIROS BOMBEIROS ATUANTES EM UNIDADES DE PRONTO-ATENDIMENTO (UPAS)

Priscila Grangeia dos Santos, Joanir Pereira Passos

Resumo


O ESTRESSE E A SÍNDROME DE BURNOUT EM ENFERMEIROS BOMBEIROS ATUANTES EM UNIDADES DE PRONTO-ATENDIMENTO (UPAS)

Priscila Grangeia dos Santos, Joanir Pereira Passos .

Descritores: enfermagem; esgotamento profissional; estresse psicológico.

 

INTRODUÇÃO

O trabalho é mediador de integração social, tendo, assim, importância fundamental na constituição da subjetividade, no modo de vida e, portanto, na saúde física e mental das pessoas. As ações implicadas no ato de trabalhar podem gerar reações psíquicas relacionados às condições do trabalho. Dentre as reações psíquicas aos trabalhadores existe o estresse e a Síndrome de Burnout.

O estresse laboral resulta do desequilíbrio mantido entre as demandas que o exercício profissional exige e as capacidades de afrontamento do trabalhador. É no local laboral onde se estabelecem as demandas de tarefas, e o profissional experimenta variados graus de controle sobre as atividades que executa (SILVA, 2007).

A Síndrome de Burnout é uma resposta ao estresse laboral crônico que ocorre com predilição em profissionais de organização de serviços, com destaque para médicos, enfermeiros e professores. Deteriora significativamente a qualidade do trabalho e consequentemente a qualidade do serviço que a organização oferece. (GIL-MONTE, 2002, SILVA, 2000, BELANCIERI, 2005).

Muitos estudos abordam alterações da saúde mental em enfermeiros de serviços hospitalares, mas estudos com enfermeiros bombeiros atuantes em Unidades de Pronto-atendimento (UPAs) ainda são escassos. Segundo Murta e Tróccoli (2007), os Bombeiros que lidam com situações de emergência em saúde estão mais susceptíveis ao desenvolvimento de stress no trabalho. E existem evidências de que os bombeiros estão expostos a fatores de risco para o desenvolvimento de burnout.

 

OBJETIVOS

Descrever o perfil de estresse em enfermeiros bombeiros atuantes em UPAs; analisar a ocorrência da Síndrome de Burnout em enfermeiros bombeiros atuantes em UPAs e; avaliar a associação entre estresse e a Síndrome de Burnout em enfermeiros bombeiros atuantes em UPAs.

 

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa exploratória do tipo seccional. Os sujeitos do estudo foram enfermeiros bombeiros atuantes em UPAs. A estratégia metodológica utilizou-se de um questionário com questões para caracterização da população; o Job Stress Scale (JSS) - escala criada por Tores Theorell que possibilita avaliar a exposição ao estresse baseado na demanda psicológica no trabalho e controle sobre o trabalho e; o Inventário em Burnout de Maslach (MBI - Human Services Survey) - questionário utilizado para estimar a síndrome de burnout, composto por afirmações sobre sentimentos e atitudes que englobam os três aspectos da síndrome: exaustão emocional, despersonalização e envolvimento pessoal no trabalho.

A coleta de dados foi realizada após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e a autorização do comandante do 2º Grupamento de Socorro de Emergência do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, em atendimento ao disposto na Resolução Nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Após a aplicação dos instrumentos, se deu o início da análise dos dados coletados. O estresse foi avaliado a partir da JSS, onde através dos níveis de demanda e controle obtém-se a possibilidade de quatro experiências dentro do ambiente de trabalho: trabalho com alta exigência, trabalho ativo, trabalho de baixa exigência e trabalho passivo. E, segundo proposto por Reinhold apud Benevides-Pereira (2004) através do MBI, verificou-se a possibilidade de presença da síndrome de burnout e aferiu-se os componentes da síndrome: exaustão emocional, despersonalização e envolvimento pessoal no trabalho. E observou-se a associação entre as dimensões demanda e controle do JSS e a ocorrência da Síndrome de Burnout

 

RESULTADOS

Dentre a população estudada (58 enfermeiros bombeiros), 82,8% eram do sexo feminino. A faixa etária de 26 a 30 anos apareceu com maior prevalência, 56,9% dos entrevistados. E 56,8% da amostra viviam sem companheiro (solteiro, divorciado ou separado) e 67,2 % não tinham filhos. 41,4% possuíam renda familiar de mais de R$5000,00. Em relação à cor da pele auto relatada, 50% considerava-se branco e os outros 50% considerava-se não branco (preto, pardo, amarelo ou indígena). O nível de escolaridade revelou que a maioria dos enfermeiros participantes possuíam pós-graduação (72,4%).

Observou-se período relativamente curto na ocupação: mais de 81% referiram menos de 10 anos na ocupação atual. A presença de mais de um vínculo empregatício foi uma realidade para a maioria da população (70,7%). Além do número de vínculos, quase a totalidade da população (93,1%) apresentou demanda elevada de trabalho com carga horária de trabalho semanal igual ou superior a 40 horas semanais, tendo 44,8% da população com carga horária semanal superior a 60 horas semanais. Sabe-se que a carga horária semanal excessivamente alta que, muitas vezes, se somam ao trabalho em turnos contribui como estímulo ao estresse. Estudos apontam inclusive que esses fatores são motivos para abandono da profissão (SECAF; RODRIGUES, 1998, ANGERAMI; GOMES; MENDES, 2000).

Trabalhando com o modelo demanda-controle de Karasek, o JSS observou-se prevalência maior de trabalho com alta exigência (alta demanda e baixo controle), representado por 62,1% da população do estudo, sendo em sua maioria mulheres entre 26 a 30 anos com mais de um vínculo empregatício.

A possibilidade de indicativo da Síndrome de Burnout avaliada pelo MBI apareceu em 49 enfermeiros bombeiros, ou seja, 84,5%, também sendo a maioria mulheres entre 26 a 30 anos. E o indicativo de tendência à síndrome apresentou-se em 3 integrantes, 5,2%. Avaliando cada dimensão da síndrome em alta, média e baixa tendência à Burnout, obtiveram-se percentuais maiores dentro do nível alta tendência à Burnout nas três dimensões: 89,7% com alta tendência à Burnout na dimensão exaustão emocional, 78,9% com alta tendência à Burnout na dimensão despersonalização e 79,3% com alta tendência à Burnout na dimensão envolvimento pessoal no trabalho, diferenciando o resultado de outros estudos, como o realizado por Borges et al (2002) a nível hospitalar, onde 93% dos participantes estavam distribuídos entre os níveis médio e alto. 

O estudo aponta que a maioria dos enfermeiros com indicativo da Síndrome de Burnout ou tendência à síndrome possuíam até cinco anos de profissão (56,8%), aproximando-se de outros estudos como o de Feliciano, Kovacs e Sílvia (2005) afirmam que nas áreas de saúde, pesquisas têm demonstrado maior concentração de profissionais insatisfeitos nos primeiros anos de formado, tendendo a cair com o transcurso do tempo. Ressaltando que a insatisfação é uma característica da Síndrome de Burnout.

Abordando o vínculo profissional, 92,6% dos profissionais com mais de um vínculo apresentaram indicativo ou tendência à Síndrome de Burnout. Provavelmente, esta situação demonstra a necessidade de ter múltiplos empregos devido à acentuada lacuna entre os baixos salários e as aspirações a um determinado padrão de vida compromete a qualidade da assistência e a saúde física e mental dos profissionais de saúde (FELICIANO; KOVACS; SÍLVIA, 2005, p. 234).

E foi constatada a associação entre a exposição às dimensões do estresse e a presença da Síndrome de Burnout, onde 58,6% dos enfermeiros encontravam-se dentro da alta exigência no trabalho e com indicativo da síndrome. Confirmando Sentone e Gonçalves (2002) já que a demanda de trabalho vem sendo associada e discutida como potencial fator relacionado ao sofrimento psíquico para a enfermagem.

 

CONCLUSÕES

As atividades laborais dos enfermeiros bombeiros atuantes em UPAs impõe altas demandas junto ao baixo controle, evidenciando alta prevalência de estresse associado a presença da Síndrome de Burnout em uma população jovem (26 a 30 anos). A discussão sobre intervenções no meio ambiente de trabalho desses profissionais torna-se fundamental para o bem-estar laboral e consequentemente a saúde mental. As alterações psíquicas desses trabalhadores trazem prejuízos ao indivíduo como ser social além de afetar o cuidado prestado. O equilíbrio no ambiente de trabalho deve ocorrer para que evitar ou reduzir o adoecimento.

 

REFERÊNCIAS

 

  1. ANGERAMI, E.L.S.; GOMES, D.L.S.; MENDES, I.J.M. Estudo da permanência dos enfermeiros no trabalho. Rev. Latino-am. Enfermagem, v.12, n.04, p.614-22, jul. – ago. 2004.

 

  1. BELANCIERI, M.F. Enfermagem: estresse e repercussões psicossomáticas. Bauru: EDUSC, 2005.

 

  1. BORGES, L.O. et al. A síndrome de burnout e os valores organizacionais: um estudo comparativo em hospitais universitários. Psicol. Reflex. Crit., v.15, n.1, p. 189-200, 2002.

 

  1. FELICIANO, K.V.O.; KOVACS, M. H.; SARINHO, S. W. Sentimentos de profissionais de serviços de pronto-socorro pediátrico: reflexões sobre burnout.  Rev. Bras. Saude Mater. Infant, Recife, v.5, n.3, p. 319-328, jul.-set. 2005.

 

  1. MURTA, S.G.; TRÓCCOLI, B.T. Stress ocupacional em bombeiros: efeitos da intervenção baseada em avaliação de necessidades. Estud Psicol, v.24, n.1, p. 41-51, jan.-mar. 2007.

 

  1. REINHOLD, H. H. O sentido da vida: prevenção de stress e burnout do professor. 2004. Dissertação (doutorado em psicologia) – Pontifícia Universidade Católica de Campinas, São Paulo, 2004.

 

  1. SECAF, V.; RODRIGUES, A.R.F. Enfermeiros que deixaram de exercer a enfermagem: por quê? Rev. Latino-am. Enfermagem, v.06, n.02, p.5-11, abr.1998.

 

  1. SENTONE, A.D.D.; GONÇALVES, A.A.F. Semina: Ciências Biológicas e da Saúde, Londrina, v. 23, [s/n], p. 33-38, jan. – dez.2002.

 

  1. SILVA, D.M.P.P.; MARZIALE, M.H.P. Absenteísmo de trabalhadores de enfermagem em um hospital universitário, Rev. Latino-am. Enfermagem, v.08, n.05, p.44-51, 2000.

 

  1. SILVA, J.L.L. Estresse e transtornos mentais comuns em trabalhadores de enfermagem. 2007. Dissertação (mestrado em enfermagem) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro.

 

 

 


Palavras-chave


: enfermagem; esgotamento profissional; estresse psicológico

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DOI: http://dx.doi.org/10.9789/2175-5361.2010.v0i0.%25p 

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