Poder, religião e relações de gênero na Antiguidade e no Medievo

Maria Eichler Sant'Angelo

Resumo


A publicação do Dossiê “Poder, religião e relações de gênero na Antiguidade e no Medievo” acompanha o renovado e crescente interesse dos graduandos brasileiros por essas duas áreas de estudo da História. Por um lado, houve, nos últimos anos, uma verdadeira investida da indústria do entretenimento (Netflix, The History Channel etc.) na produção de conteúdos que recriam o imaginário coletivo a respeito dessas duas temporalidades. Por outro, observamos uma efetiva e consistente reavaliação minuciosa e questionadora por parte dos especialistas acerca dos paradigmas teóricos e interpretativos que orientam nossa compreensão das sociedades do mundo antigo e do medieval. Os autores dos artigos reunidos neste volume aceitaram o desafio de produzir instrumentos de reflexão histórico-crítica em meio ao desdobramentos complexos dessas alterações epistemológicas em contexto pós-moderno. Cumpre salientar que tais trabalhos são a formalização do profícuo debate ocorrido no âmbito da IV Jornada de História Antiga e IX Jornada de Estudos Medievais da UNIRIO, dos quais participaram em torno de vinte e cinco graduandos. Incentivamos aqueles cujas comunicações mais se destacaram a submeter seus textos ao Conselho Editorial.

O Dossiê se inicia com o artigo de Heitor Rubens Saldanha Machado sobre a experiência da formação da Liga Acadêmica de Estudantes de Graduação em História Antiga. O autor nos apresenta as atividades, estrutura e vínculo da LAEGHA com a sociedade e faz um balanço promissor do resultado de seus primeiros projetos. Em seguida, Marco Antônio da Silva Júnior e Mariana da Rosa Medeiros discutem, nos seus respectivos textos, o engendramento de formas de identidade e relações de poder a partir da materialização de duas práticas rituais estruturantes da cultura romana antiga, o rito funerário e a instituição do banquete. Nos dois artigos que encerram a primeira parte do Dossiê, dedicado à História Antiga, Patricia Cristine Alves Veras e Mariana de Azevedo Santana Gomes interrogam as construções de gênero subjacentes às representações acerca do comportamento de duas figuras femininas centrais da narrativa histórico-mítica romana, Túlia e Lucrécia, que irrompem justamente em momentos decisivos de alteração de regimes políticos. O artigo de Lucas Gesta inaugura a segunda parte do Dossiê, que reúne trabalhos voltados para a Idade Média. O autor investiga a interessante mas pouco explorada faceta oriental da religiosidade cristã medieval por meio da figura do bispo Jacob Baradeus. Na mesma linha, temos o texto de Vanessa das Neves Bezerra, que traz mais um aspecto do cristianismo oriental ao discorrer sobre a imagem da Virgem Maria e seu uso pela Igreja Ortodoxa Bizantina. No que tange o Ocidente medieval, há o trabalho de Fernando Musso, que aborda a visão de Tomás de Aquino sobre a guerra a partir da análise de trechos da Suma Teológica, buscando discutir as contribuições do teólogo e filósofo cristão para a reflexão sobre a atividade militar no medievo e além. Caio Schechner finaliza o Dossiê com um artigo que contesta a interpretação vigente de Dom Quixote como ruptura com a forma de se representar a Cavalaria até então. Para tanto, o autor compreende a obra-prima de Cervantes como um fenômeno da chamada “Longa Idade Média”.


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