Covers, duplos e látex: cicciolina's breakfast

Henrique Saidel

Resumo


Apresento a hipótese de que a utilização irônica do cover e do duplo como estratégia performática de subjetivação e criação artística – mais precisamente, o cover e o duplo de si mesmo – pode contribuir para a instauração de uma performance da presença. Presença que se cria na mediação, e que, tal qual no cover e no autômato, emerge da ausência. Ausência que, através da ironia do simulacro, produz presença. Paradoxos de uma arte na qual o corpo e a subjetividade do artista, que já não mais se pretendem originais, se multiplicam a cada instante. Possibilidades de uma cena presentificada, corporificada, numa recusa à interpretação compulsória – sem hierarquias entre original/cópia, verdadeiro/falso, vivo/inanimado, bom gosto/mau gosto, presença/ausência. Esta investigação pretende gerar propostas para artistas múltiplos que criam/atuam/dirigem a cena, e também são criados/atuados/dirigidos por ela: pensamento e ação que não se encerram na dicotomia ator/diretor nem na dualidade criador/criatura. Autores como Deleuze, Benjamin, Carlson, Goldberg, Cohen, Nietzsche, Foucault e Hutcheon são importantes para estas discussões. A comunicação inclui a apresentação de Cicciolina's Breakfast, solo no qual materializo algumas das questões abordadas na pesquisa: o jogo irônico de presenças e não-presenças, ativado pela multiplicação da imagem e da presença física do performer. Não mais manipular o boneco. Não mais vestir o boneco. Ser o boneco. Natural? Artificial? Vivo? Morto? Pele? Plástico? Peixe? Naturalismo? Artificialismo? Kitsch. Pornografia de plástico. O erotismo explícito da carne-látex. A ironia de um metacorpo em colapso. Vestir-me e vestir outros corpos de mim mesmo: ser e multiplicar o duplo de mim mesmo, cover de mim.

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