Mateus, o anti-herói brasileiro: antropologia teatral das festas afro-brasileiras

Luciano Matricardi de Freitas Pinto

Resumo


As manifestações populares estão quase sempre baseadas na crença e na devoção sagrada. Os motivos pelos quais cada um participa tem haver com uma promessa, com um pedido ao santo padroeiro ou pela graça de uma realização. Esse compromisso tão fiel ao fazer, à prática, à elaboração festiva, se aproxima daquilo que alguns encenadores teatrais, de meados do século XX - como Jerzy Grotowski e Eugenio Barba -, foram buscar nos modos de elaboração técnica das tradições espetaculares orientais, a fim de incorporar na tradição teatral, ocidental, uma sistematização do trabalho do ator anterior à cena – referindo-me então a alguns conceitos como: Treinamento Teatral, Ator Santo, Pré-expressividade e Antropologia Teatral. Baseando-me, então, nos procedimentos propostos por aqueles encenadores, buscarei na expressividade dos personagens da cultura popular brasileira – aqui delimitados pelas relações análogas com a figura do Mateus - elementos que possam servir como base pré-expressiva para o treinamento de ator. Essa figura genérica, denominada Mateus, comportaria todos os personagens caracterizados pela Antropologia como tricksters – deuses, espíritos, entidades e personagens mitológicos, que desafiam as regras e padrões vigentes questionando as operações humanas estratificadas. Das quais, para então abordar uma pequena variedade de tricksters, optei por trabalhar com o Mateus do Boi de Mamão, o Bastião das Folias de Reis e o Zé Pelintra da Umbanda. Sendo através da gestualidade o aspecto essencial para o desenvolvimento desse trabalho, no qual, a ginga talvez seja a característica de maior destaque, revelando a personalidade ambígua dessas figuras.

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