REVISTA COMPLETA. Ano 16. Número 02: Edição dezembro de 2018.

Psicanálise e Barroco em Revista

Resumo


Em Tempos de Ressonâncias Entre a Voz, a Memória, as Musicalidades e Outras Evoluções...

A presente edição da Psicanálise & Barroco em Revista traz uma novidade: inauguramos na seção de artigos temáticos, gerenciada por Renata Mattos-Avril, um espaço para o acolhimento de produções voltadas para a articulação entre a voz, a memória e as musicalidades, sobretudo a partir dos acessos abertos pelo diálogo com a psicanálise, em especial a psicanálise lacaniana. Uma rigorosa seleção de artigos voltados para esse tema será publicada nesse, e em alguns outros números, além do espaço destinado a temas livres que acolhemos habitualmente. A vocação transdisciplinar desta Revista nos permite essa ousadia. Nesta seção serão favorecidas reflexões e elaborações teóricas que conjuguem o campo da voz à luz da psicanálise com questões relativas à memória, quer em seu aspecto subjetivo ou social, à música, à musicologia, à etnomusicologia e às artes em suas mais diversas declinações.

Estar à escuta da produção dos sujeitos e da cultura em torno da voz, com os traços de memória sonoro-musicais – dizíveis e indizíveis, conscientes e inconscientes – que dela temos notícias em nossas criações é o que caracteriza os textos que acolheremos nesta seção. E também os efeitos da voz na clínica, seja nos sintomas e na escuta e no trabalho diante destes, na direção desejante que a voz coloca numa análise (desde a demanda de análise ao seu fim), na invocação à criação e à irrupção de um radicalmente novo e nunca antes ouvido.

Abrimos esta seção com um pequeno grande texto inédito de Alain Didier-Weill, que data de 2016, e que temos a honra de lançá-lo agora, nesse momento de luto pela partida do convívio entre nós desse grande analista e exímio criador. A partir de três questões a ele endereçadas por Maria Lidia Arraes Alencar, Didier-Weill nos aponta a proeminência do objeto voz e da pulsão invocante no sujeito. Maria Lidia elenca algumas etapas no percurso de Lacan em torno do conceito de objeto voz, nos deixando questões preciosas sobre a possibilidade de pensar o saber-fazer (e o savoir-y-faire) com a voz, assim como as complexas relações entre letra, objeto, desejo e gozo. Pontos que os artigos que integrarão essa seção nas futuras edições da Revista poderão nos ajudar a esclarecer. Didier-Weill traz à baila uma reflexão sobre os diferentes posicionamentos de Freud e Lacan diante do objeto voz e de como cada um deles, talvez mesmo por aquilo que apontaram sem dizer, nos convida a levar cada vez mais além a teorização sobre a voz, a invocação, o sonoro. Didier-Weill nos fala do posicionamento clássico de Freud, localizando a postura de Lacan pela via do barroco, o que o leva igualmente a abordar as oposições entre descontinuo e contínuo, que, no caso da voz e da invocação, se presentifica respectivamente na consoante e na vogal. A partir de Lacan, Didier-Weill nos chama a ouvir os efeitos da voz para um sujeito no âmbito da clínico, em especial no fim de análise. Abrir esta seção com as palavras de Didier-Weill (16/07/1939 – 17/11/2018) é nossa forma de prestar uma homenagem póstuma a este psicanalista ímpar que soube como nenhum outro dizer do movimento do sujeito face à pulsão em sua vertente invocante de “fazer ouvir sua própria voz no concerto do mundo[1]”.

Na sequência, três textos inéditos compõe a seção de artigos temáticos, o primeiro numa perspectiva metapsicológica, o segundo visando propor a música como mediação na clínica da infância, o terceiro mais propriamente inserido na interseção psicanálise-cultura.

Em “A voz na surdez”, Viviane Espírito Santo dos Santos e Heloisa Caldas abordam os efeitos de ressonância da voz e de lalíngua no corpo do sujeito em constituição, não apenas quanto à dimensão sonora, vocal, ressonante da linguagem, mas, sobretudo em relação à invocação e ao desejo do Outro. Causadas pela sentença lacaniana de que “a linguagem não é vocalização. Vejam os surdos[2]”, as autoras se interrogam sobre a incidência do objeto voz e do enigma que este transmite ao sujeito de forma estrutural e estruturante. Percorrendo a teoria freudiana dos objetos parciais e a teoria lacaniana do objeto a e de lalíngua, elas defendem a proposição de que o que será determinante para a constituição do sujeito passa pelas marcas do que foi dito sobre e ao sujeito, as marcas do sonoro que invocam e exigem uma resposta. A questão da surdez e da língua dos sinais é tratada neste artigo em diálogo com o livro “Le cri de la mouette” (“O grito da gaivota”) de Emmanuelle Laborit.

A questão da voz, do corpo e da invocação pela voz materna também se encontra como ponto central no artigo “A música na clínica da infância: bordejamento da voz” de Letícia Maria Soares Ferreira e João Luiz Leitão Paravidini. Partindo de uma reflexão sobre a estrutura musical e a relação entre as notas na linguagem musical, os autores buscam estabelecer uma aproximação entre música e inconsciente de forma a propor a utilização da música na clínica da infância, na qual o sujeito ainda está em vias de se constituir. A música seria então concebida como ferramenta para uma “suplência musical clínica”, tendo, segundo os autores, um “potencial denunciativo” do “arranjo constitucional do sujeito”, o que poderia nele viabilizar uma mudança na posição subjetiva. Isto tendo em vista o “potencial mediador” da música ao articular real e simbólico. Ainda, os autores defendem que a “potencialidade transformadora” da música na clínica poderia ao mesmo tempo dar um tratamento ao gozo e abrir um caminho para a significação.

Em Blue like jazz: singularidades de uma experiência religiosa e musical”, Bruno Albuquerque toma como objeto de reflexão o filme “Blue like jazz”, de Steve Taylor baseado no livro semibiográfico homônimo de Donald Miller, propondo uma aproximação entre mística e religião a partir da leitura da experiência musical singular de Miller. As elaborações freudianas acerca da religião e, sobretudo, das origens e funções psíquicas das ideias religiosas são retomadas pelo autor, sendo que este opta por seguir uma direção distinta de Freud. Em vez de considerar a religião como uma ilusão a ser superada pela ciência, Bruno Albuquerque se coloca à escuta da singularidade do caso a caso, pautada no inconsciente de cada sujeito e em como este pode se apropriar de elementos do campo da religião para responder a conflitos que dizem respeito à sua própria posição subjetiva e também ao mal estar na cultura. O autor enfoca igualmente a questão do feminino, tanto pelo viés freudiano quanto lacaniano, e do gozo para avançar na leitura analítica da posição do personagem de Donald Miller no referido filme, sustentando que a experiência musical pôde, neste caso, possibilitar uma abertura ao inaudito, ao real.

Abrimos a seção de artigos livres com o trabalho "Feminilidade e sujeito: compreenção psicanalítica da personagem Macabéa", onde a articulação entre psicanálise e literatura é privilegiada pelas autoras Silvânia Maria da Silva e Joyce Hilário Maranhão. A personagem Macabéa, do livro "A hora da estrela", de Clarice Lispector, serviu como inspiração para as autoras em sua abordagem a respeito da temática do feminino, teorizada inicialmente por Freud e retomada por Lacan, que privilegiou em sua abordagem os modos de gozo, que orientam o psiquismo. Para as autoras, a personagem Macabéa permite fazer uma aproximação com os modos que uma mulher encontra para fazer-se sujeito e produzir um sentido sobre si e sobre os seus enlaçamentos sociais, por mais que este sentido não exista como algo alcançável. O feminino, referido à ausência de sentido, ao encontro com o vazio, como atestam as autoras, é também aquilo que abre um campo de possibilidades de criação permitindo ao sujeito um saber fazer com o nada, com furo que o caracteriza.

Em "A poiesis de Schreber" Mardem Leandro Silva e Daniela Paula do Couto fazem uma rigora análise da obra "Memórias de um doente dos nervos", de autoria de Daniel Paul Schreber, para revelar como o louco era inserido no discurso social. Os autores sustentam que o registro das memórias de Schreber é, na verdade, o da poesia, ou seja, poiesis, consistindo como tentativas de dar sentido ao desvario que o acometera. Dessa forma, a poiesis de Schreber revela tanto sua humanização como sua apropriação do sofrimento psiquico, o que consiste em um saber-fazer com esse sofrimento, já que sua obra se inscreve na história da humanidade. Como afirmam, ao se apropriar do sofrimento, Schreber se reconhece e é reconhecido pelos outros, o que o retira da posição de objeto, garantindo-lhe o lugar de sujeito de sua própria história.

A equiparação entre o herói grego descrito na "Iliada", e os personagens de "Grande sertão veredas", foi construída de forma surpreendente por Sergio de Menezes Andraus Gassani no artigo "Ecos da Iliada no sertão". A leitura concomitante dessas obras pelo autor possibilitou uma interlocução interessante entre as literaturas grega e brasileira, o que o levou a constatação de que ambas as obras são atravessadas pelo épos heroico. A Interessante tese denfendida pelo autor é que, na "Iliada", o épico grego não se atrela à ideia do bem ou mal, o que comparece na obra de Guimarães Rosa, já que todo enredo mostra um descolamento dos atributos de força e nobreza e a presença de um juízo moral sobre os personagens.

Os desafios enfrentados por psicológos no trabalho da atenção psicossocial da região sul do Estado de Mato Grosso foram analisados no artigo "Impasses da atuação de psicólogos e contribuições psicanalíticas para o campo da atenção psicossocial" escrito por Karoline Rochelle e Alcindo José Rosa. Para tratar desse intricado tema, os autores valeram-se de entrevistas abertas realizadas com psicólogos que trabalham na atenção psicossocial com o objetivo de fazer um levantamento das problemáticas enfrentadas por estes profissionais e, assim, propor como alternativa para o enfrentamento dos impasses a utilização da psicanálise como ferramenta no trabalho com a coletividade. Tomando como ponto de partida as falas trazidas pelos profissionais da psicologia, os autores defendem que é necessário reconhecer os limites da clínica e não sua inoperância. Ratificam ainda ideia de que, diante dos problemas enfrentados, os profissionais não devem se inibir, mas sim experimentar e reinventar seu oficio com ousadia para levar adiante seu trabalho.

Fechamos a seção de temas lives com o artigo "Toxicomania e pulsão", de autoria de Anna Luiza Dantas Salim e Elza Ferreira Santos, em que são apresentados alguns pontos de vista a respeito da relação entre o conceito de pulsão, cunhado por Freud, e a questão das toxicomanias. As autoras destacam a relação da toxicomania com a desfusão pulsional entre a pulsão de vida e a pulsão de morte para afirmar que o enfraquecimento das relações entre a representação e o simbólico faria com que os automatismos e repetições decorrentes da pulsão predominem na toxicomania. Concluem que na toxicomania haveria um amálgama entre o sujeito e o objeto da satisfação, o que transformaria o ato de drogar-se em uma necessidade real.

Finalizamos a edição com a resenha de Macla Nunes do livro "Transexualidade: o corpo entre o sujeito e a ciência", de autoria de Marco Antonio Coutinho Jorge e Natália Travassos, publicado em 2018 pela Editora Zahar, ressalta a importância desta obra para um melhor entendimento acerca da transexualidade enquanto fenômeno subjetivo atravessado pelo discurso científico.

A diversidade de temas apresentados nesta edição é instingante.... Desejamos, assim, uma ótima leitura!

 


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