Call for Papers: REVISTA M. – Dossiê 6: v. 3, n. 6, jul./dez. 2018

RESUMO:

Os registros arqueológicos funerários de que dispomos para o estudo das sociedades passadas revelam, por excelência, um conjunto de práticas situacionais e ritualizadas que buscam dar conta de um problema comum a todas as sociedades humanas, independentemente de sua localização ou temporalidade: a morte.  Entender como a morte é vista e tratada por diferentes sociedades ao longo do tempo oferece-nos, portanto, um campo rico de investigação arqueológica e social. Nossa proposta aqui é de um dossiê inteiramente dedicado à arqueologia funerária a fim de traçar diálogos entre diferentes estudos de casos, com propostas e questionamentos diversos centrados em um tema comum: Performance, Morte e Corpo.

Performance e dinâmica ritual são temas caros ao debate em antropologia e arqueologia e que se tornaram alicerce dos novos estudos em arqueologia funerária. Hoje, é necessário cada vez mais pensar o conjunto de práticas funerárias em sua heterogeneidade e dinamicidade, isto é, como o resultado de ações humanas dotadas de historicidade que não apenas reproduzem valores sociais, mas que também criam, legitimam e reconfiguram noções de diferentes sociedades e, consequentemente, os lugares sociais dos indivíduos em suas comunidades (sejam eles vivos ou mortos). A importância do corpo na arqueologia tem igualmente crescido em destaque.

Vários pesquisadores têm chamado nossa atenção para a necessidade de unirmos os estudos das tumbas e do mobiliário funerário àquele dos cadáveres e ossadas (Crossland, 2010). Na academia francesa, os estudos de tafonomia dos cadáveres desenvolvidos por Duday e seus colegas desde 1978 (cf. Duday et al., 1990; Knüsel, 2014) abriram uma nova fronteira de pesquisa. Avançando na compreensão dos “gestos funerários”, eles criaram novas metodologias para analisar os vestígios bioarqueológicos, identificando a movimentação das ossadas para reconstruir as formas de enterramento e tratamento funerário. Na vertente de língua inglesa, trabalho semelhante foi desenvolvido pela arqueologia da corporificação (archaeology of embodiment). Desenvolvida a partir dos anos 80, ela é tributária tanto dos estudos bioarqueológicos quanto dos estudos de fenomenologia e de teoria da prática (cf. Shanks, 1995; Joyce, 2005; Lesure, 2005; Crossland, 2010).  Para ambas, o corpo – de modo análogo à cultura material – oferece um meio de expressão e é, em certa escala, também um artefato dotado de uma materialidade própria que constrói identidades e que é moldado a partir de experiências sociais. Para os estudos funerários a inclusão do corpo como objeto de investigação permite-nos debater não apenas como dados bioarqueológicos podem contribuir para um melhor entendimento dos mortos (por exemplo através do estudo de doenças, traumas físicos, acessos à nutrientes e alimentação, afiliações de parentesco), mas como o corpo-artefato também nos auxilia  a entender como diferentes performances e rituais fúnebres afetam o tratamento dado aos corpos dos mortos em contextos arqueológicos, a partir das posições, orientações, alinhamentos e localizações em que as ossadas foram encontradas. Além disso, nos permite observar também como um conjunto de ações e repetições diárias condicionaram e moldaram corpos antes da morte, fazendo com que diferenças hierárquicas, etárias e de gênero se tornem visíveis ou, ainda, ressaltadas em contextos fúnebres (Sofaer, 2006).

Neste sentido, organizado a partir de uma perspectiva multidisciplinar, com um diálogo entre Arqueologia, História, Antropologia e Sociologia, esse dossiê visa também criar um espaço de discussão a respeito de propostas teórico-metodológicas para o estudo da materialidade da morte. Convidamos, assim, contribuições que tratem dos temas:

 

▪ Performance ritual;

▪ Tratamentos funerários;

▪ Novas abordagens teórico-metodológicas de estudos cemiteriais;

▪ Relações sociais ou étnicas em estudos cemiteriais;

▪ Bioarqueologia em estudos funerários;

▪ Novos métodos em análise forense;

▪ Novas abordagens de deposições funerárias;

▪ Novos achados de escavações de conjuntos cemiteriais.

REFERÊNCIAS: 

CROSSLAND, Zoë. Materiality and embodiment. In: HICKS, D.; BEAUDRY, M. C. (Eds.). The Oxford Handbook of Material Culture Studies. Oxford: Oxford University Press, p. 386-405, 2010.

DUDAY, Henri et al. L'Anthropologie «de terrain»: reconnaissance et interprétation des gestes funéraires. Bulletins et Mémoires de la Société d'Anthropologie de Paris, v. 2, n. 3, p. 29-49, 1990.

JOYCE, Rosemary A. Archaeology of the body. Annu. Rev. Anthropol., v. 34, p. 139-158, 2005.

KNÜSEL, Christopher J. Crouching in fear: Terms of engagement for funerary remains Journal of Social Archaeology, v. 14, n. 1, p. 26-58, 2014.

LESURE, Richard G. Linking theory and evidence in an archaeology of human agency: Iconography, style, and theories of embodiment. Journal of Archaeological Method and Theory, v. 12, n. 3, p. 237-255, 2005.

SHANKS, Michael. Art and an Archaeology of Embodiment: some aspects of Archaic Greece. Cambridge Archaeological Journal, v. 5, n. 2, p. 207-244, 1995.

SOFAER, J.R. The body as material culture: a theoretical osteoarchaeology. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.