Call for Papers: REVISTA M. – Dossiê 7: v. 4, n. 7, jan./jun. 2019

RESUMO:

No Brasil, desde pelo menos as duas últimas décadas, há um profícuo debate sobre o tema do suicídio. De várias áreas do saber, sobretudo das Ciências Humanas e Sociais, bem como das práticas e dos saberes Psi, surgem estudos, reflexões e ensaios que historicizam, complexificam e ampliam as possibilidades analíticas, os sentidos, representações, imagens e referências atribuídas ao ato de se dar à morte e ao sujeito que o pratica. Esta abertura teórica e metodológica nas formas de conhecimento do tema se mostra fundamental para ampliar o conhecimento. Consideramos que o evento do suicídio é produto do sofrimento humano e, intrinsicamente, articulado com sua cultura e sociedade. Nosso preceito inicial é conceber o panorama sociocultural onde os indivíduos vivem e tecem seus cotidianos, por vezes, cotidiano gerador de sofrimento e morte. Se a compreensão de um indivíduo e seus atos é desconexa de seu contexto sociocultural a apreensão do seu sofrimento remete ao bizarro, ao estranho ou a patologia. Lugar, geralmente, ocupado pelo evento suicida.

Nossa perspectiva, então, será o evento suicida e suas inter-relações simbólicas e históricas com a cultura. Portanto, concebemos o suicídio como uma forma de morte voluntária repleta de significações que revelam e complexificam as vicissitudes da vida do indivíduo. Marcar este ponto é fundamental, pois acreditamos que o ângulo pelo qual percebemos um evento determina sua compreensão.

Neste dossiê não pretendemos nos ater ao modelo biomédico hegemônico sobre o suicídio e, sim, construir nossa própria argumentação sobre este evento. Mas, devido a hegemonia deste discurso em relação ao suicídio na sociedade contemporânea é necessário delinearmos alguns pontos críticos para nortear nossa posição conceitual. Atualmente, a predominância do discurso médico sobre os eventos suicidas (e todos eventos de saúde-doença) submergiu a própria noção tão proclamada de multiplicidade e complexidade na causalidade do fenômeno do suicídio. Embora, nos manuais do OMS sempre seja citada a multicausalidade do suicídio, vemos com frequência um elemento discursivo incoerente pairando sobre esta proposição de multicausalidade, que geralmente aponta para uma evidente perspectiva reducionista. Enfim, precisamos marcar que na sociedade contemporânea o discurso psiquiátrico submergiu todas as outras formas de compreensão do sofrimento humano, e consequentemente, do suicídio.

Por outra via, temos que em pesquisas sobre suicídio e tentativas de suicídio onde os dados são coletados fora da ordem médica (etnografias nas ruas, ambientes de trabalho, entre outros) e por profissionais com outra leitura do fenômeno encontramos dados diferentes. Não necessariamente os eventos suicidas estão correlacionados ao transtorno mental e, sim, aos sofrimentos da vida como: o trabalho, relações amorosas, velhice, abandono, imposições sociais e conflitos sobre sexualidade, não pertencimento aos grupos sociais, etc.

Cabe relembrar um clássico, Durkheim (1887), de quem um dos argumentos foi afirmar a não existência de uma relação incontestável entre o doença mental e suicídio. Sua obra redimensionou a compreensão do suicídio como fenômeno histórico intrínseco às culturas, através da demonstração da ocorrência do evento de forma sistemática e típica em cada uma delas. Entretanto, nos parece, que esquecemos este ensinamento na produção de conhecimento contemporâneo.

O objetivo desse dossiê é publicar artigos que promovam e enriqueçam o debate sobre o tema. Para isso, privilegiará análises, referências, proposições, teorias e metodologias diversas.

REFERÊNCIAS:

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