Call for Papers: REVISTA M. – Dossiê 8: v. 4, n.8, jul./dez. 2019

RESUMO:

Os estudos cemiteriais nas últimas décadas revelaram avanço e vêem de modo progressivo, despertando o interesse de pesquisadores das mais variadas áreas de conhecimento, apontando para a relevância e ressaltando a necessidade do incremento das investigações sobre os temas que tomem os cemitérios como objeto de análise (exemplos de estudos realizados no Brasil seguem nas referências bibliográficas abaixo). A proposta desse dossiê é estimular e colocar em evidência as pesquisas e a produção acadêmica concernentes aos espaços cemiteriais, independente do período ou contexto histórico a que pertençam e independente da área de conhecimento, a fim de permitir múltiplos olhares sobre as necrópoles. É possível, por exemplo, pensar sobre os cemitérios oitocentistas, destacando sua arquitetura e ornamentação, bem como compreender como se constituíam os espaços fúnebres no período colonial e os lugares de enterramento no contexto contemporâneo. É de suma importância refletir sobre os modos de sepultamento na cultura brasileira extensiva também a toda a América Latina Ibérica, mas é igualmente necessário confrontar com outras culturas e outros tempos. O dossiê se abre para o diálogo e a compreensão sobre a organização dos lugares dos mortos e como os vivos lidam e atribuem valores culturais a esses ambientes. A produção artística funerária da América Latina teve grande influencia da cultura clássica proveniente do gosto europeu e ao mesmo tempo referenda até hoje questões da cultura popular sacra e profana. Nos cemitérios podemos perfilhar o significado histórico e cultural de uma sociedade que ali registra uma multiplicidade de identidades, de memórias e suas relações de poder e de afetividade. No Brasil, um dos pesquisadores pioneiros nesse tipo de investigação é o sociólogo Clarival do Prado Valladares (1918-1983) que, na década de 1970 publicou os dois volumes da obra seminal: “Arte e sociedade nos cemitérios brasileiros” (1972), obra que se torna mediadora e catalisadora dos estudos precedentes. Ele também foi o pioneiro em busca a arte simples em cemitérios populares da Bahia no livro “Riscadores de milagres: um estudo sobre arte genuína” (1967). Para além de propor o diálogo contemporâneo entre estudiosos e pesquisadores cemiteriais, nossa proposta incorpora uma homenagem ao estudioso Prado Valladares que, se vivo estivesse, completaria 101 anos de existência. Deste modo, em tempos de comemoração e reflexão, a ideia é colocar em debate os cemitérios como lugar de arte e cultura das sociedades nas quais se inserem.

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