Call for Papers: REVISTA M. – Dossiê 9: v. 5, n. 9, jan./jun. 2020

RESUMO:

Em diferentes tempos, culturas, grupos e sociedades elaboraram – e elaboram – sistemas de classificação, leitura, entendimento e intervenção referentes ao que há algum tempo se convencionou nomear saúde e, em oposição, doença. Em geral, a doença é considerada indesejável. A declaração de saúde ou de enfermidade pode ser acompanhada por valorações em cada contexto, que podem variar segundo inserção social, raça/etnia, gênero, geração, idade ou religião. Em suma, segundo o contexto, o adoecimento pode estar associado a diferentes julgamentos sociais da pessoa ou da coletividade. Os doentes demandam cuidados, atenção e assistência. As sociedades desenvolveram respostas as mais diversas para as situações de doença; assim como variados modos de atendimento e cuidados dirigidos às pessoas enfermas. Na sociedade ocidental contemporânea, o principal referencial está baseado nos saberes provenientes da Medicina, como a anatomia, a fisiologia e outros saberes; a suas instituições, como hospitais, clínicas, ambulatórios; e seus profissionais, como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, entre outras categorias da área da saúde – o que não significa tratar-se de um campo homogêneo, sem tensões e/ou dilemas.

Distintos campos de conhecimento dedicam-se tanto aos processos de saúde/doença quanto às interações entre os diversos atores sociais (como profissionais de saúde, doentes, seus familiares e círculo de sociabilidade) presentes na busca por diagnóstico, na tomada de decisões em torno de cuidados e tratamentos. Estudos do campo das Ciências Sociais e Humanas e da Psicologia, entre outros, têm indicado a importância de compreensão dos significados do adoecimento – seja em evento agudo ou em condição crônica, seja em situação individual ou em epidemia – pelos sujeitos envolvidos, no que concerne ao processo decisório. Para além dos estados de saúde e doença, o adoecimento também pode determinar uma trajetória em direção ao término da existência. Estudos dos campos da História, da Sociologia, da Psicologia e da Antropologia apontaram mudanças das atitudes e comportamentos referentes à doença e ao processo do morrer, que culminaram com o que foi nomeado de ocultamento dos moribundos e da morte, no Ocidente, no século XX. A partir da Segunda Grande Guerra observam-se transformações na abordagem do adoecimento e do término da vida. Com o advento de aparelhagem tecnológica destinada à respiração artificial e com a consequente possibilidade de transplantes de órgãos, foi preciso elaborar novas definições e demarcações acerca do término da vida. Antes categorizada como parada cardiorrespiratória, a morte passou a contar com outra possibilidade, a de morte encefálica ou cerebral. Assim, o morrer tornou-se um processo fragmentado complexo, no qual as células e os sistemas poderiam deixar de funcionar em tempos diferentes. A partir do final do século XX e durante o século XXI, paulatinamente os processos de adoecimento, de tratamento e do morrer em decorrência de enfermidade crônica passaram a se tornar cada vez mais visibilizados e expostos socialmente. A doença e a morte, antes ocultas nos bastidores da vida social (Elias, 2001), passam a ser objeto de discursos e de práticas, na direção de uma produção de “qualidade de vida no tempo que resta” e, sobretudo, de construção de uma “boa morte” (Menezes, 2004).  

Nossa perspectiva incide sobre o evento do adoecimento que pode seguir (ou não) na direção da morte, os significados atribuídos pelos diversos atores sociais envolvidos no diagnóstico, nos cuidados e nas decisões concernentes à gestão dos cuidados da doença. Para além da atribuição de sentidos, consideramos relevante uma abordagem sobre as interações entre todos os presentes no drama social do adoecimento e do processo do morrer. Assim, não pretendemos nos restringir ao modelo biomédico hegemônico sobre a patologia nem sobre as estatísticas de mortalidade. Antes, interessa-nos receber reflexões sobre as estratégias de enfrentamento e entendimento, tanto da parte de profissionais de saúde como de pacientes e seus familiares, em face da doença e do processo do morrer. Uma vez que é possível manter ou prolongar a vida, por meio de novas tecnologias, escolhas são efetuadas de modo a postergar a morte – por vezes, à custa de sofrimento para o enfermo. Instituições, articuladas a modalidades inovadoras de cuidado no último período de vida – como os hospices e unidades de cuidados paliativos – e, também, novas categorias profissionais são criadas, dirigidas a pacientes ditos “terminais”, em diversos países, como “aide-soignante”, na França, “midwifes for the dying”, na Inglaterra, entre outros. Formas inovadoras de assistência são produzidas para doentes categorizados como “fora de possibilidades terapêuticas de cura”, como a proposta paliativista. A pessoa assim classificada deixa de pertencer ao mundo dos saudáveis e dos doentes ordinários – aqueles em tratamento, com possibilidades de cura ou remissão da patologia – e sabe que caminha inexoravelmente para a morte, enquanto ainda está vivo. Ele deve tomar decisões referentes ao final da vida e após seu término. Portanto, trata-se de uma condição peculiar, que pode ser objeto de análises, com apoio de distintos referenciais teóricos.

Neste dossiê não pretendemos nos ater ao modelo biomédico hegemônico sobre doença/morte, mas receber artigos que ampliem as construções em torno dos processos de adoecimento, gestão dos cuidados e processo do morrer. Portanto, nossa intenção é publicar artigos oriundos de diferentes áreas de conhecimento, passíveis de promover e enriquecer as visões e os debates em torno destes temas e que iluminem suas interfaces. Para tanto, estamos abertos a receber análises, proposições e produções teóricas, com metodologias diversas. Esperamos contribuir na produção de múltiplas abordagens, que permitam mapear agendas regionais e locais, de modo a incluir os distintos modelos e perspectivas presentes nas sociedades, tanto para intervenção e regulação do final da vida como para interrogar os processos do morrer, a partir de experiências coletivas particulares, que questionam a natureza etnocêntrica das presunções biomédicas dominantes.  

Referências 

ARIÈS, P. O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.

ARIÈS, P. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

ELIAS, N. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

GAWANDE, A. Mortais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

HIDALGO, C. (compiladora). Etnografías de la muerte. Rituales, desapariciones, VIH/SIDA y resignificación de la vida. Buenos Aires: CICCUS, 2010.

KELLEHEAR, A. Uma história social do morrer. São Paulo: Ed. Unesp, 2016.

LUXARDO, N. Morir en casa. El cuidado en el hogar en el final de la vida. Buenos Aires: Biblos, 2010.

MENEZES, R. A. Em busca da boa morte. Antropologia dos Cuidados Paliativos. Rio de Janeiro: Garamond/Fiocruz, 2004.

MENEZES, R. A. Difíceis decisões. Etnografia de um centro de tratamento intensivo. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2006.

RODRIGUES, C., LOPES, F. H. (orgs.). Sentidos da morte e do morrer na Ibero-América. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014.

WALTER, T. The revival of death. London: Routledge, 1997.