Call for Papers: REVISTA M. – Dossiê 11: v. 6, n. 11, jan./jun. 2021

RESUMO:

Assim como tem mostrado a antropologia desde a sua origem, os diversos grupos humanos têm por costume estabelecer complexas e dinâmicas articulações entre mortos e vivos. Contudo, salvo algumas exceções de caráter comparativo, esse corpus de trabalhos tem abordado a morte como uma derivação secundária de outros interesses que tinham como primordiais (as relações de parentesco, a organização jurídica e política, o sistema sociorreligioso, etc.). 

Com o avanço da profissionalização e a especialização temática multiplicaram-se as pesquisas que tiveram o fenômeno mortuário como eixo central da indagação. Mas esse impulso deu-se por causa da ausência de um enfoque que pudesse desenvolver elementos teóricos para uma compreensão geral do decesso.

Como ferramenta utilizada por diversas disciplinas, a etnografia tem tido um papel relevante no estudo de processos que envolvem situações de morte. A participação na vida social das comunidades onde trabalhamos tem permitido compreender o caráter socialmente produzido das valorações, discursos, práticas e representações a respeito do tema, contribuindo entre outras questões, para salientar o caráter difuso da diferenciação entre a morte – um dos poucos universais humanos - e a vida.

De modo que a presença do pesquisador nos processos sociais que se propõem explicar, permite atender a questões contextuais essenciais para a interpretação de situações atravessadas pela morte. Por exemplo, enquanto em alguns âmbitos a profusão da palavra e do testemunho resultam significativos, em outros o papel do silêncio permite entrever a presença de tabus ou de valorações relevantes para a análise; é dizer, enquanto em alguns contextos prevalece a expressão pública das emoções como obrigação frente à morte, diversas modalidades de racionalização são a norma em outros.

Ainda bem, toda vez que as posições naturalistas têm sido questionadas e superadas em etnografia, sabemos que a nossa presença no terreno transforma e modifica os meios sociais onde trabalhamos. Isto leva a perguntar-nos sobre as relações que estabelecemos com nossos interlocutores, as apropriações de nosso trabalho que eles podem fazer e as derivações que podem ter nesses contextos, etc. Mesmo assim, devemos considerar o modo em que os pesquisadores podem ver-nos afetados quando conduzimos um trabalho etnográfico por uma extensão de tempo considerável em um contexto particularmente difícil, no qual a morte é protagonista.

Finalmente, deve advertir-se que nas últimas décadas o desenvolvimento tecnológico tem apresentado novas formas de entender as relações entre a vida e a morte, assim como novos cenários de trabalho. De um lado, as transformações conceituais sobre a morte derivadas dos novos mecanismos de preservação de órgãos, cadáveres e restos corporais têm renovado o interesse na temática e têm contribuído para dissolver os limites entra vida e a morte. Do outro lado, o crescimento no campo das comunicações, por exemplo, no uso das páginas de internet como suporte para novos tipos de ritual mortuário, tem apresentado uma novidade na hora de realizar trabalho de campo etnográfico no que se refere a esse tema.

O propósito desse dossiê é explorar as possibilidades de análise que oferece o entrecruzamento entre morte e etnografia. De acordo com isso, esperamos receber contribuições que, desde diferentes disciplinas (antropologia, sociologia, comunicação, história, etc.), se proponham apresentar debates conceituais próprios do campo temático, estudo de caso, etc., ou problematizar as derivações da utilização de metodologias e técnicas em contextos onde a morte é protagonista.

Aguardamos receber propostas de artigos orientados a campos diversos tais como a violência do Estado e as mortes políticas, os genocídios e as mortes massivas, a saúde pública, as pandemias, os cuidados paliativos, a natalidade e o aborto, o suicídio, a ação ritual mortuária, as santificações, os espaços comemorativos, as trajetórias pós-falecimento, a morte social, entre outros tópicos possíveis.

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