Eliminar “sem deixar vestígios”: a distensão política e o desaparecimento forçado no Brasil

Janaína de Almeida Teles

Resumo


Transcorridos mais de 30 anos desde a (re)democratização no Brasil, observam-se importantes lacunas nas articulações entre o passado e o presente, no que tange ao legado da ditadura militar. Com o objetivo de contribuir para o entendimento desse processo histórico, este texto procura caracterizar o desaparecimento forçado enquanto estratégia repressiva da ditadura e sua centralidade no processo de distensão política. Propomo-nos a traçar um panorama de seus antecedentes históricos e a prevalência de paralelos existentes nas estratégias repressivas dos governos dos generais Médici e Geisel. Este estudo beneficiou-se de documentos inéditos ou pouco explorados, e uma ampla revisão da bibliografia existente sobre o assunto, a fim de apresentar um balanço crítico sobre o aparato repressivo e o período imediatamente anterior à distensão política no país.

Palavras-chave


Ditadura militar; desaparecimento forçado; aparato repressivo; distensão política e redemocratização brasileira

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DOI: http://dx.doi.org/10.9789/2525-3050.2021.v5i10.265-297

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