Quando o corpo se torna indigente: Uma etnografia sobre os processos de morrer à luz do estado

Andréa de Souza Lobo, Luiza Báo Sobreira

Resumo


Este estudo tem por objetivo discutir questões sobre a construção da identidade do corpo morto enquanto indigente. Referimo-nos aos cadáveres que adentram ao Instituto Médico Legal do Distrito Federal sem os documentos que o classificam. Buscamos discorrer sobre o que legitima a atualização do status do morto, que passa a ser lido como não-identificado, ignorado, ou, simplesmente, indigente. Neste processo, é fundamental compreender quem faz parte da construção dessa narrativa: instituições, saberes e papéis. Os departamentos policiais, a metodologia médica-jurídica e os documentos são produzidos através de uma cadeia técnico-burocrático de criação. Definidora de fatos e verdades, a ciência médica serve-se de instrumento ao Estado para criar discursos, a fim de dar sentido a estes corpos, cujo o desconhecimento é a única informação. Dotado de racionalidade e poder, o Estado autoriza as narrativas sobre estes corpos. Os marginalizados em vida permanecem marginalizados na morte.

Palavras-chave


não-identificados; indigentes; IML; documento; Estado

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DOI: http://dx.doi.org/10.9789/2525-3050.2021.v5i10.219-239

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