Capital racial e a perspectiva colonial no século XXI

Yone Maria Gonzaga, Jair da Costa Júnior

Resumo


Este artigo discute como o colonialismo configurou as sociedades ocidentais a partir de uma lógica de hierarquização e classificação dos povos e grupos sociais pelo crivo das distinções raciais. Erigiu e reservou às estruturas de Estado a função de dar continuidade ao projeto de dominação e exploração, através de dispositivos de racialidade/biopoder no ordenamento social. Demonstramos, a partir de estudos empíricos, como tal perspectiva implica na definição das condições de vida e estas homologamente como justificativas para imposição da exclusão e da morte como uma causalidade natural. Esta premissa reforça a hipótese um capital racial atuando como um poder simbólico na orquestração das estruturas sociais e individuais, condicionando a definição e escopo das políticas públicas. Questiona-se a perspectiva racionalista atribuída ao Estado e denuncia o arbítrio das políticas públicas, as quais, suas reais finalidades encontram sentido alhures sob a hipótese de atender às intencionalidades que lhes originaram.

Palavras-chave


Capital racial, Estado, políticas públicas, racismo, genocídio

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DOI: http://dx.doi.org/10.9789/2525-3050.2021.v5i10.240-264

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