Redes de transformação harmônica na obra de Villa-Lobos: uma abordagem derivada da teoria neo-riemanniana

Paulo de Tarso Salles

Resumo


O presente trabalho pretende demonstrar métodos de análise harmônica como teoria dos conjuntos e teoria neo-riemanniana e sua aplicação na análise de obras de Villa-Lobos e outros compositores do século XX. A investigação parte da insuficiência terminológica da teoria tonal para abordar esse repertório. Dois trabalhos sobre Villa-Lobos, datados de 1946, delineiam com nitidez o problema: Lorenzo Fernandez confronta alguns acordes com a terminologia tonal e João Souza Lima observa as sonoridades decorrentes da simetria entre teclas pretas e brancas. Assim, esta apresentação prossegue mostrando algumas proposições e tecnologias analíticas mais recentes, como as redes de transformação harmônica representadas em modelos gráficos bi e tridimensionais. Trata também da mudança de paradigma no campo da harmonia, abandonando o modelo a partir do movimento das fundamentais em prol do livre tratamento da condução das vozes, dando ênfase ao mínimo esforço e às relações entre simetria e assimetria. Nesse sentido, uma das propostas deste trabalho é o mapeamento das regiões aqui denominadas “Euler”, onde os sistemas triádico-hexatônicos propostos por Cohn (1996) são relacionados aos sistemas tetrádico-octatônicos desenvolvidos por Douthett & Steinbach (1998) e Baker (2003). Adicionalmente, as regiões Euler reinterpretam a tonnetz desenvolvida por Leonhard Euler em 1774. Essas estratégias são necessárias para a determinação do fator de distância entre acordes, formalizado a partir do conceito de “parcimônia” de Douthett e Steinbach (1998), onde a distância é maior quanto mais passos de semitom forem dados para realizar a transformação de um acorde em outro. Essas distâncias também serão investigadas em algumas combinações não-triádicas, previstas por Lewin (1982), como a tonnetz (014). Em seguida, são analisadas duas obras de Villa-Lobos, um trecho do Estudo nº 12 para violão (1929) - comentado a partir da análise de Ciro Visconti (2016) que avalia suas relações triádicas dentro dos ciclos hexatônicos - e o “Polichinelo” da Prole do Bebê nº1 para piano (1918), onde os procedimentos harmônicos do compositor são demonstrados em função dos modelos teóricos apresentados e desenvolvidos neste trabalho.

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