A bimusicalidade na relação entre universidade e favela: reflexões sobre uma experiência etnomusicológica em uma favela brasileira

Rubens de Oliveira Aredes

Resumo


Este trabalho apresenta parte da análise sobre o material etnográfico acumulado ao longo dos últimos 6 anos de pesquisa junto ao Grupo Arautos do Gueto, na favela do Morro das Pedras, Belo Horizonte. Nestes seis anos de pesquisa, que abrangem a Iniciação Científica, Mestrado e uma parte do Doutorado, a observação participativa combinada às pesquisa ação e extensão universitária, vem sendo o procedimento adotado. As reflexões aqui apresentadas articulam o material etnografado com as noções de musicalidade como habilidade não ontológica e sim socialmente apreendida de expressão através organização de sons; linguagem e sistema musicais como frutos dos processos sócio-históricos de desenvolvimento da musicalidade em cada sistema cultural; bimusicalidade como habilidade em apreender um segundo sistema (idioma) musical distinto do sistema materno; as diferenças de linguagem entre os sistemas musicais euro ocidental, dominante na universidade brasileira, e o afro-brasileiro, dominante na maioria das favelas e outras regiões do Brasil; as discussões pós-colonialistas que tratam das disparidades socioculturais em ex-colônias como continuação histórica das disparidades na relação entre colonizador e colonizado; a disparidade de poder entre o etnomusicólogo brasileiro e as comunidades brasileiras onde este empreende pesquisa, e a bimusicalidade como recurso do etnomusicólogo formado pela universidade brasileira onde o sistema musical hegemônico é o euro ocidental e que vai às favelas e comunidades onde o sistema musical hegemônico é outro. Concluo refletindo como, no caso da pesquisa em andamento, a bimusicalidade é apontada como um recurso importante do processo pedagógico e para amadurecimento da relação entre universidade e favela.

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