Alegria, alegria: uma proposta de análise

Pedro Martins

Resumo


Proponho um modelo de análise para a canção que contemple a simultaneidade dos sistemas semióticos em jogo, submetendo o objeto à luz do processo histórico. Como ensaio-geral para a realização dessa proposta, apresento um estudo sobre “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso. Meu objetivo é transcender abordagens formalistas e culturalistas, evidenciando que o sentido da canção como gênero se constrói na articulação historicizada entre os estratos poético e musical. Nesse sentido, a descrição formal pura leva tão longe quanto o comentário temático de superfície: ambos aquém da trama poético-musical que define a canção. Assim, para analisar “Alegria, alegria”, foi preciso considerar as rupturas do encadeamento harmônico; as imagens em disparate sobre a métrica regular dos versos; o embate entre forma e conteúdo, engajamento e experimentalismo, ou ainda, nacionalismo e universalismo, no ambiente cultural brasileiro dos anos sessenta; e, enfim, lembrar que tudo isso aconteceu no bojo de um governo autoritário recém-instalado. Os elementos da canção são interpretados e discutidos no âmbito da Tropicália, um movimento cuja atuação é representativa da atividade artística nos primeiros anos do Brasil pós-64. Não se trata, contudo, de estabelecer correspondências diretas entre a matéria formal e os fatos sociais ou fenômenos culturais. Na verdade, a informação musical compõe, com a informação poética e o quadro histórico-social, um cenário de análise, como prefiro chamar. Não quero dizer, ainda, que musicólogos ou etnomusicólogos estejam mais habilitados para o estudo da canção. Ao contrário, insto pela necessidade do trânsito interdisciplinar para uma abordagem satisfatória da canção como forma de produção de conhecimento.

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