Portamento como escolha estética na gravação histórica do Andante do Concerto Op.3 de Serge Koussevitzky

Alfredo Ribeiro

Resumo


Estudo sobre a utilização do recurso interpretativo portamento na gravação histórica de 1929 do Andante (KOUSSEVITZKY; LUBOSHUTZ, 1929), que constitui o segundo movimento do Concerto Op.3 para Contrabaixo e Orquestra de Serge Koussevitzky. A análise espectrográfica sonora, amparada pela análise formal da partitura editada por WALTER (2000), permite compreender as escolhas estéticas feitas pelo compositor-intérprete. O cotejamento das ocorrências de três tipos de portamento, aqui nomeados de portamento inicial (PI), portamento com nota intermediária (PNI) e portamento conclusivo (PC), revela dados que apontam para uma utilização massiva deste efeito de articulação, prática hoje considerada ultrapassada ou de mau gosto (GREEN, 2005). O grande número de recorrências de portamento na Seção B do Andante, aliado a um significativo aumento do andamento, confere mais tensão e contraste com a Seção A e Seção A’, o que enfatiza e deixa mais claro para o ouvinte a forma ternária (ou forma canção). A análise espectrográfica revela uma predominância do terceiro tipo, o portamento conclusivo. As recorrências de portamenti em trechos equivalentes da forma (como repetições de frases e recapitulação de seções) apontam para um planejamento que contribui para uma unidade interpretativa de Koussevitzky em sua própria obra. Quanto à direção intervalar, nota-se um equilíbrio entre portamenti ascendentes e descendentes, equilíbrio que deu lugar, como se percebe nos dias de hoje, há um grande predomínio dos portamenti ascendentes. Uma comparação qualitativa entre as práticas de performance de Koussevitzky em 1929 e as práticas de performance consolidadas hoje entre os instrumentistas da família do violino mostra, por um lado, o abandono da variedade de tipos de portamento e, por outro, a continuidade e hegemonia do um estilo interpretativo no qual se prefere o portamento mais ascendente e mais discreto.


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