Editorial

Esta edição do periódico opercevejoonline reúne pesquisadores e artistas que em seus trabalhos de investigação e/ou de criação tematizam o Corpo no universo da Cena: o corpo expressivo, nas perspectivas de formação e formadores; linguagens e técnicas; performances e experimentação prática. Universo extenso, cada vez mais alargado por experiências e indagações que perpassam diversos saberes e disciplinas, os artigos aqui apresentados abrangem manifestações artísticas realizadas nos âmbitos das Artes Cênicas e das Artes Visuais, representados pela imbricação entre o Teatro, a Dança e o Cinema/Vídeo.

A linguagem oral, presente na transcrição de três entrevistas e uma palestra, revela como o discurso sobre a corporeidade e a experiência do movimento ainda não foram suficientemente escritos por alguns dos seus agentes principais, tais como o coreógrafo Steve Paxton (EUA), o bailarino/rolfista Hubert Godard (FR), ou a diretora Anne Bogart (EUA). Algo perfeitamente compreensível quando se percebe o quanto os artistas/pesquisadores citados continuam em pleno movimento.

Organizado em cinco eixos, também eles interligados por conexões transversas, os artigos discutem processos e métodos de criação, que conduzem a conceitos e noções como ator-performer, performatividade, composição, ritual e interculturalismo. Esta seção abre com uma entrevista com a diretora da SITI Company (NYC), Anne Bogart, apresentada em versão bilíngue, no original em inglês e na sua tradução para o português, seguida da palestra proferida pelo ator norte americano Donnie Mather na abertura do II Engrupedança: Diálogos e Dinâmicas (UNIRIO/2009), também em versão inglês/português, em que Mather exemplifica sua experiência como ator associado à SITI Company, com destaque para o treinamento Viewpoints e o método Suzuki, utilizados pela Companhia. O artigo Nossa experiência com a SITI Company é o relato de um workshop vivenciado por Matteo Bonfitto, Beth Lopes e Claudia Mele, na mesma SITI Company. O coreógrafo/pesquisador norte americano Steve Paxton, referência no contexto da dança pós-moderna, em entrevista a Fernando Neder, discute como sua pesquisa sobre os princípios de base do movimento corporal levaram-no a criação do Contato Improvisação, na década de 70 e, mais recentemente, ao método Material para a Coluna. O diretor alemão Frithwin Wagner-Lippok, com o artigo Realidades Oscilantes. Observações sobre o performativo no teatro contemporâneo coloca em evidência o conceito de performatividade, através de alguns experimentos teatrais contemporâneos, que redefiniram os papéis do ator e do espectador. Finalizando esta seção, Adriana Maia investiga as origens do trabalho do ator em algumas práticas sagradas e rituais religiosos, apresentados em O trabalho do ator e sua origem espiritual.

No segmento práticas somáticas, transparecem as relações deste campo de conhecimento com as neurociências e com as ciências cognitivas. Isabelle Ginot, em Para uma epistemologia das técnicas de educação somática, propõe uma análise crítica dos princípios gerais e da transmissão dos métodos somáticos, ressaltando sua aplicação na dança. Em Buracos negros, entrevista concedida à Patricia Kuypers, publicada originalmente em francês na revista Nouvelles de Danse, o ex-bailarino e rolfista Hubert Godard apresenta o estado da sua pesquisa em análise do movimento, explicitando alguns conceitos como pré-movimento e esquema postural. E, finalmente, Ivana Buys Menna Barreto, em artigo também apresentado no II Engrupedança, intitulado Movimento compartilhado, enfoca os neurônios-espelho como uma ferramenta importante para o estudo do movimento criativo.

A seção análise de obras aporta quatro leituras críticas distintas, através de estratégias em que emergem as políticas do corpo no teatro/cinema e na dança contemporânea/performance, traduzidas por conceitos sempre presentes e necessários, tais como: Tempo, Espaço e Percepção. No artigo Corpo e espaço na obra de Peter Brook: Marat/Sade e os limites da representação, de Gabriela Lírio Gurgel Monteiro, o corpo cênico é estudado em sua relação com o espaço, tomando como base a obra Marat/Sade, de Peter Brook, nas suas duas versões, a do teatro e a do cinema. Mônica Fagundes Dantas volta-se para a cena da dança contemporânea no artigo Corpos nus e seminus na coreografia contemporânea: intimidade e exposição em Aquilo de que somos feitos e em Bundaflor Bundamor, em que reflete sobre a presença da nudez, contrapondo os dois espetáculos, o primeiro de Lia Rodrigues e o outro da Eduardo Severino Cia. de Dança. Jussara Xavier dedica-se ao binômio gesto/percepção no artigo O Outro na pesquisa e ação da dança contemporânea, através da análise das performances da bailarina Erika Rosendo num espaço público, no projeto Retrato do outro. Cabe a Nirvana Marinho fechar esta seção com o artigo Wagner Schwartz: corpo transobjeto, em que o corpo cênico do coreógrafo/performer Wagner Schawrtz é examinado em dois trabalhos de sua autoria: Transobjeto e Piranha.

A quarta seção deste periódico, história e historiografia, traz Pedagogias musicais de dois pioneiros: Laban e Stanislávski, em que Jacyan Castilho retoma a questão do ritmo no modo como é trabalhado por Constantin Stanislávski (1863-1938) e por Rudolf Laban (1879-1958), em contraponto às suas diversas conotações e acepções na cena contemporânea. As obras de Nina Verchinina (1919-1995), Klauss Vianna (1928-1992) e Angel Vianna (1928) são tratadas por Beatriz Cerbino e pelo Grupo de Pesquisa Artes do Movimento, respectivamente, como emblemáticas nas discussões da história recente da Dança no Brasil. Beatriz Cerbino se atém à investigação da técnica de dança moderna criada por Nina Verchinina, restaurando com detalhes alguns fundamentos da mesma, exemplificados através de sequências pedagógicas, em Nina Verchinina e a construção de um corpo expressivo. O Grupo de Pesquisa Artes do Movimento se debruça sobre a trajetória de outro grupo, o Teatro do Movimento (1975-1980), dirigido pelos Vianna (Klauss e Angel), contextualizando-o no panorama internacional da época e revelando sua arte transversal, no artigo Grupo Teatro do Movimento: uma proposta de pesquisa em dança.

Finalmente, em outras mídias e imagem do corpo, a videodança e o confronto do corpo com as artes visuais, tratados nos dois artigos: Pororoca - um corpo possível entre mídias, de Ana Lana Gastelois; e Imanências na tela - a dissecação artística do corpo mediada pelas tecnologias da videodança, de Ana Flávia de Mello Mendes. O primeiro propõe uma analogia entre o fenômeno natural da pororoca e o encontro entre diversas mídias, à luz da obra da performer Ana Lana Gastelois. E o segundo, que encerra esta edição, busca verificar a aplicabilidade dos conceitos de imanência e de dissecação artística do corpo virtual, no contexto da videodança, e foi também apresentado no II Engrupedança.

As discussões sobre as práticas corporais no Teatro, na Dança e nas Artes Visuais têm se expandido enormemente para diversas áreas de conhecimento, de tal modo que proporcionam um transbordamento para além da própria cena que as gerou. Nós, do Grupo de Pesquisa Artes do Movimento, pretendemos que os artigos aqui apresentados tenham essa mesma força propulsora de novas investidas no pensamento-ação deste corpo que se manifesta em nome da arte.

Agradecemos aos pesquisadores do Grupo Artes do Movimento que tornaram possível a organização e edição deste periódico, as Profas. Dras. Enamar Ramos, Giselle Ruiz (PRODOC/CAPES) e Tatiana Motta Lima e a Profa. Me. Letícia Teixeira. Agradecemos ainda à Isabel Tornaghi, Marito Olsson-Forsberg e Joana Ribeiro que possibilitaram uma presença expressiva de traduções nesta edição.  

É importante reiterar que esta edição foi constituída por artigos oriundos de chamada pública, com ampla divulgação no meio acadêmico e na comunidade artística. Contamos também com alguns artigos apresentados durante o II Encontro Nacional de Grupos de Pesquisa em Dança, o II Engrupedança: Diálogos e Dinâmicas, organizado pelo Grupo de Pesquisa Artes do Movimento, em 2009, na UNIRIO. Ressaltamos, por fim, a participação significativa de pesquisadores estrangeiros referenciais na área da pesquisa sobre o corpo cênico. Nosso último agradecimento vai para a CAPES, que através do programa PRODOC, possibilitou a retomada do periódico científico/artístico O Percevejo, do PPGAC/UNIRIO, desta feita, em seu novo suporte on-line.

Desejamos a todos uma boa leitura!

 

Editoras especiais: Profas. Dras. Nara Waldemar Keiserman e Joana Ribeiro da Silva Tavares - PRODOC/CAPES