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2019

v. 17, n. 1 (2019)

Graças ao esforço de nossa equipe editorial é com alegria que informamos aos nossos leitores que todos os artigos publicados em Psicanálise e Barroco em Revista, desde 2003, encontram-se disponíveis para serem consultados na plataforma SEER, no portal de Periódicos da UNIRIO. Aproveitamos também para lembra-los que recebemos artigos para serem submetidos à avaliação, em sistema de fluxo contínuo.

Nesta edição, assim como na anterior, a seção de artigos temáticos é dedicada ao tema da voz, da música, da memória e das musicalidades em psicanálise, contamos com excelentes artigos de pesquisadores renomados nessa área, como Inês Catão, Débora da Fonseca Seger e Edson Luis André de Sousa e Corinne Calvet Curbaille. Selecionamos artigos que abarcam um vasto panorama da reflexão psicanalítica em torno da voz passando pela clínica do autismo e a função do analista neste contexto, pela incidência da indeterminação e da utopia na cultura, mais especificamente na música de Gilberto Mendes, para pensar a indeterminação estrutural do sujeito, até chegarmos à questão do feminino – do gozo feminino – transmitida na escrita e na música de Hildegard von Bingen.

Em Just your voice – a voz como mediador privilegiado na clínica com bebês em risco para autismo e na clínica com crianças autistas”, Inês Catão revela com grande sensibilidade como o desejo do analista faz função invocante na clínica com bebês e crianças ditas autistas. Temos como ponto central desta discussão uma vinheta clínica surpreendente, em que um menino autista de três anos pôde ser ouvido pela a mãe em seu impasse, buscando uma saída, face à entrada da linguagem via objeto voz.

Cativado pelo filme “A pequena sereia”, na repetição “escolhida” que pode dar a ouvir algo de si que é a ecolalia, o menino fala algo que serve como isca à escuta da mãe, elevada a Outro não surdo neste ato. Para se tornar humana, a pequena sereia teria que dar a própria voz à Medusa. Para entrar na linguagem, o pequeno humano precisa dar a voz ao Outro, “recuperando-a” em seu vazio contornado que o faz falar. Pela perda da voz, tornamo-nos humanos, parlêtres. A prematuridade do encontro do infans com a pulsão invocante, que o banha mesmo antes de seu nascimento e incide no real de seu corpo, é determinante para o sujeito. Um impasse na resposta que se pode a dar à esta pulsão tem consequências estruturantes e estruturais. Daí a importância clínica fundamental, como aposta a autora, do manejo da voz e da invocação na clínica com crianças autistas.

“Blirium: música e clarão”, de Débora da Fonseca Seger e Edson Luís André de Sousa propõe uma viagem poética pelo universo da música aleatória, um dos movimentos surgidos em resposta à dissolução do tonalismo na música erudita ocidental por volta da década de 1950, tirando consequências analíticas sobre a indeterminação como estética e ética de criação e de invenção face ao real. Os autores se concentram na busca do compositor Gilberto Mendes, radicalmente expressa na obra “Blirium” de 1965, de ir além de um novo modo de pensar e fazer música, estendendo-se, juntamente com outros compositores da mesma época, até uma proposta de “Música Nova brasileira”. Tal movimento terá igualmente efeitos sobre a escrita musical, colocando em xeque a relação entre compositor e intérprete e entre estes e o ouvinte, já que o texto musical será a cada vez reinventado, a obra se dando a ouvir na radicalidade do “nunca antes ouvido”. Sendo que, a cada vez, há algo da obra que escapa, algo que aponta para uma multiplicidade de sentidos, para uma abertura ao sem sentido e ao imprevisível. Algo que não existe e que, mesmo assim, faz mover o existente.

É por esse trilho – de uma obra que se inscreve na cultura por sua imprevisibilidade e que, paradoxalmente, como afirma o próprio compositor, “não existe” – que os autores a aproximam do conceito de utopia, tal qual formulado por Ernest Bloch e por teóricos da utopia iconoclasta. Para estes, a função da utopia não seria descrever a imagem de um futuro que se deve ter como ideal, mas sim “ouvir” as vozes do futuro que, como potência, já estariam atuantes, em latência, naquilo que se cria no presente. Há assim uma responsabilidade no que estar por vir. Os autores irão, deste modo, aproximar a indeterminação em Blirium à potência utópica e à indeterminação do sujeito pela via do que é conceituado na teoria lacaniana como objeto a e do desejo.

Ir ao encontro de Hildegard von Bingen... “Aller à la rencontre d’Hildegarde de Bingen...”. Este é o convite que Corinne Calvet Curbaille nos faz com seu artigo. Escutando a singularidade da produção musical e poética desta religiosa beneditina, mística, compositora, naturalista, poeta e escritora alemã do século XII, reconhecida como santa e doutora pela igreja católica, a autora se debruçará sobre a possibilidade de transmissão do real e de uma “certa verdade” sobre o gozo feminino experienciado por Hildegarde. A partir do diálogo com a via mística destacada por Lacan no Seminário “Mais, ainda”, há uma reflexão sobre o gozo fálico e o gozo Outro, que não se inscreve mas que pode abrir à criação e a uma “poética viva do corpo e da linguagem”.

Por não se inscrever, este gozo Outro não pode ser transmitido ou traduzido. Porém, uma criação artística pode dar notícias deste gozo nos efeitos que causa no fruidor. Hildegard von Bingen o faz por sua escrita com a linguagem, ao buscar escrever “o que vê e o que ouve” em seus momentos místicos, e igualmente com a escrita musical pelo canto. A interdição ao canto que lhe é imposta, assim como o posicionamento ético de Hildegard em diversos momentos de sua via, são analisados pela autora sob a ótica da função do belo em relação com o desejo e o real tal qual abordada por Lacan através da tragédia de Antígona, de Sófocles no Seminário “A ética da psicanálise”. Deste, a autora localizará uma passagem lacaniana em que a música é relacionada à catarse das paixões. A pergunta recairá, então, sobre a função da música e da escrita para Hildegard von Bingen em tecer um bordado com um saber-fazer com o objeto voz, passando por Deus como uma das faces do Outro, que interroga o gozo feminino.

Rodrigo Octavio de Arvellos Espínola e Betty B. Fuks abrem a seção de artigos livres com o texto “Psicanálise e Direito: um estudo sobre violência doméstica”, onde mostram que mesmo com a criação de leis, a violência contra a mulher continua sendo um fenômeno cada vez mais presente no seio da sociedade. A conexão psicanálise e direito é privilegiada a partir da análise da produção artística de grandes compositores, cujo objetivo é indagar de que forma a psicanálise pode contribuir com a produção de respostas mais eficientes no campo do Direito. Em “O real em questão: entre a teoria dos discursos e a hipótese comunista”, Isaias Gonçalves Ferreira estabelece a relação entre a psicanálise lacaniana e o marxismo de Alain Badiou, tomando-os enquanto discursos que criticam o capital em seu eixo neoliberal. Em seguida, o artigo “O discurso sobre o amor no banquete, de platão, e a presença de Diotima de Mantineia: mulher/sacerdotisa/hetaira” de Yvisson Gomes dos Santos e Walter Matias Lima, aborda o tema do Amor no diálogo platônico a partir da personagem Diotima, sacerdotisa e cortesã cuja fala desnuda a figura poética de Eros. No artigo “A inclusão da diferença nas políticas públicas de atenção à criança diagnosticada com autismo”, Aline da Costa Jerônimo destaca a importância do posicionamento ético e político do psicanalista frente às diretrizes de atenção à criança diagnosticada com autismo. Débora Ferreira Bossa e Anamaria Silva Neves em “Era uma vez...” Considerações psicanalíticas sobre a deficiência e os contos de fadas”, escrevem sobre a importância dos conteúdos inconscientes presentes nos contos de fadas, relacionando a vivência dos personagens com as fantasias que perpassam o corpo da deficiência.

            A relação entre a psicanálise e a obra do sociólogo Zygmunt Bauman, é costurada por Aline Nogueira no texto “Perspectivas psicanalíticas sobre amor e laços sociais na modernidade a partir da obra ``Amor líquido`` de Zygmunt Bauman”. A partir das elaborações de Freud e Lacan sobre a temática do amor, a autora interroga as ressonâncias do conceito de “amor líquido” do sociólogo Zygmunt Bauman, nas subjetividades e nos laços sociais que se constituem na modernidade. O atendimento multidisciplinar de crianças em grave adoecimento e risco efetivo de morte, é o tema desenvolvido pelas autoras Lurian Ruth Nabozny e Rosanna Rita Silva em ““Viver até o dia da sua morte”: uma discussão acerca de cuidados paliativos com crianças a partir do filme Operação Big Hero.”  Fechamos a seção de artigos livres com o texto “O paradoxo contemporâneo em torno da criança: entre o excesso e o vazio”, de Maíra Lopes Almeida e Helvia Cristine Castro Silva Perfeito, que trata a questão das marcas da pós-modernidade e sua influência nas relações estabelecidas entre pais e crianças são analisadas pelas autoras.

            A resenha, “Uma tríade impossível de regulamentar: inconsciente, transmissão e desejo”, analisa com precisão a importância das discussões em torno da regulamentação da psicanálise trabalhada por diversos autores ligados ao Movimento Articulação, no livro Ofício do Psicanalista II: por que não regulamentar a psicanálise. Dercirier Freire, destaca a existência de duas impossibilidades: a primeira relacionada à regulamentação do desejo de ser analista  e a segunda à impossibilidade de regulamentar a transmissão da psicanálise e seu exercício.

            Dessa maneira, concluímos esse editorial, certos de que nossos leitores encontrarão nesse novo volume tanto estímulos interessantes para auxiliá-los em suas pesquisas, quanto para deleitá-los em seu apetite intelectual.