Chamada para o DOSSIÊ 24 (Morte e Sagrado): v. 12, n. 24, jun./dez. 2027
Dossiê v. 12, nº. 24, jun.-dez., 2027
Tema: Morte e Sagrado
Prazo para submissão de artigos: 15 de dezembro de 2026
Diretrizes para autores em: http://seer.unirio.br/index.php/revistam/about/submissions#authorGuidelines
Organizadores:
Darío-Iván Radosta - Universidad Nacional de San Martín (UNSAM)
Lucía Copelotti - Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Rodrigo Toniol - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Temática:
A relação entre a morte e a religião constitui um dos eixos fundantes da reflexão antropológica, revelando como diferentes grupos humanos articulam dinâmicas complexas entre vivos e mortos para dar sentido à finitude. Este dossiê busca atualizar esse debate, partindo da premissa de que os modos de morrer e as representações do pós-morte são profundamente mediados por sistemas de crenças, entidades espirituais e práticas rituais. Das formas clássicas de conexão com o sagrado às configurações contemporâneas de gestão do decesso — como as verificadas em contextos hospitalares, em cuidados paliativos ou em situações de morte extraordinária —, interessa-nos analisar como a religião opera como um recurso crítico para enfrentar a desintegração dos mundos.
O surgimento e o desenvolvimento contemporâneo dos cuidados no final da vida, seja ou não como uma subespecialidade médica, também têm gerado a possibilidade de um sincretismo religioso e espiritual nos processos de significação de sofrimentos que ameaçam a vida. Destacam-se aqui, por exemplo, diversos fenômenos como a proliferação global da filosofia de cuidado hospice — que tem se nutrido, em diferentes contextos, de marcos de significação protestantes, católicos e cristãos —, a incorporação da noção de espiritualidade na prática clínica em cuidados paliativos e o uso de técnicas e recursos provenientes de lógicas vinculadas a conhecimentos considerados ancestrais ou de tradições não ocidentais — como o reiki, a meditação e o mindfulness, entre outros —. Nessa linha, o dossiê convida à publicação de trabalhos de pesquisa que analisem como se dão esses sincretismos, qual papel ocupam na significação dos processos de final de vida ou no próprio entendimento da morte ou da doença considerada terminal.
Tendo em conta que o fenômeno religioso se estrutura a partir da distinção entre o âmbito do sagrado e do profano, o cruzamento temático entre morte e religião também permite pensar na sacralização de figuras notáveis decorrente de sua morte. Tanto a canonização formal de figuras religiosas, como o caso do Padre Pio em 2002, quanto a sacralização popular e/ou política de figuras como Che Guevara, Eva Perón, Hugo Chávez ou Diego Maradona convidam a refletir sobre as práticas associadas ao culto a essas figuras, bem como sobre os cultos ligados especificamente a personificações mortuárias (como San La Muerte, no México e na Argentina). Os objetos e lugares que rememoram sua biografia dão origem a peregrinações e práticas de sacralização que evidenciam a agência e o lugar que mortos específicos ocupam no mundo dos vivos. O dossiê convida também à apresentação de trabalhos que se ocupem de analisar esses fenômenos, seja enfatizando o que a figura da pessoa morta representa, seja analisando como se deu o processo de sacralização, ou quais condutas associadas podem ser encontradas no culto a essas mortes notáveis.
No entanto, a sacralização dos espaços mortuários não se limita apenas às mortes notáveis. Os cemitérios, como lugares que “abrigam” a morte, encontram-se atravessados por múltiplos sentidos e práticas provenientes de marcos de significação religiosos e espirituais da realidade. Seja por meio de uma oferenda, de anedotas sobre a aparição dos mortos no mundo dos vivos, de mecanismos de conexão entre ambos os mundos ou pela busca de interpretar, espiritualmente ou religiosamente, a própria morte, os cemitérios aparecem como lugares de culto nos quais é comum encontrar objetos sacralizados que demandam um respeito específico — como a própria sepultura ou até mesmo os restos ósseos da pessoa falecida. O dossiê abre espaço para a apresentação de pesquisas que abordem essa problemática, seja a partir de casos atuais ou históricos nos quais se evidenciem práticas e condutas humanas que evidenciem a associação entre espaços mortuários e processos de sacralização — provenha ou não esta última de um esquema de sentido religioso institucionalizado.
Referências:
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